Moraes editou contrato de R$ 131 milhões entre esposa e Vorcaro
Informação consta nos metadados do documento apreendido pela Polícia Federal
Paulo Moura - 01/09/2026 12h28 | atualizado em 01/09/2026 13h25

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), editou a versão final de um contrato de R$ 131 milhões firmado entre o escritório de sua mulher, a advogada Viviane Barci de Moraes, e o Banco Master, de Daniel Vorcaro. A informação consta nos metadados do documento apreendido pela Polícia Federal (PF) no celular do banqueiro e foi confirmada pelo próprio escritório de Viviane.
Segundo os registros técnicos do arquivo, o documento foi aberto e modificado às 23h04 de 15 de janeiro de 2024, no sistema Office 365, por um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”. A alteração ocorreu cerca de uma hora e 40 minutos depois de Vorcaro devolver a minuta do contrato à advogada com uma sugestão de mudança.
O escritório Barci de Moraes confirmou que Alexandre de Moraes teve acesso ao contrato e afirmou que isso ocorreu a pedido do setor de compliance da banca. Segundo a nota, o ministro foi consultado, na condição de marido de Viviane, para verificar se existiriam impedimentos legais na contratação, como processos no STF envolvendo o Banco Master ou participação em julgamentos de interesse da instituição.
A banca afirma que, após a análise, Moraes concluiu que não havia impedimento para a contratação.
– Diante da inexistência de previsão de atuação no STF ou de qualquer impedimento legal, uma vez que o ministro Alexandre de Moraes jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master, o contrato foi assinado e os serviços advocatícios devidamente prestados – afirmou o escritório.
O contrato previa 36 parcelas mensais de R$ 3 milhões líquidos. Considerados os impostos, o valor bruto chegava a R$ 131,27 milhões. Documentos enviados à CPI do Crime Organizado do Senado mostram que o Banco Master realizou 22 pagamentos ao escritório entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025, totalizando R$ 80,2 milhões.
A negociação começou em janeiro de 2024. Em 11 de janeiro, Viviane enviou a Vorcaro, pelo WhatsApp, a minuta do contrato. Quatro dias depois, o banqueiro devolveu o documento com uma alteração e perguntou se a nova cláusula estava adequada.
Foi nesse momento que os metadados passam a registrar a atuação atribuída a Alexandre de Moraes. O arquivo devolvido por Vorcaro foi aberto e modificado no sistema utilizado pelo ministro, com o perfil “Ministro Alexandre de Moraes” identificado como responsável pela alteração.
Dois dias depois, em 17 de janeiro, Viviane enviou a Vorcaro a versão final do contrato, mantendo o acordo de 36 parcelas de R$ 3 milhões líquidos. A assinatura ocorreu em 23 de janeiro.
As mensagens também mostram que Viviane demonstrou preocupação com a confidencialidade do negócio. Ao orientar Vorcaro sobre o envio das vias físicas assinadas, pediu que fossem encaminhadas “em um envelope lacrado e confidencial”.
Os pagamentos foram interrompidos após a prisão de Vorcaro, em novembro de 2025, durante a Operação Compliance Zero. Segundo documentos obtidos pela CPI, o Banco Master havia efetuado 22 pagamentos de R$ 3.646.529,72 ao escritório até aquele momento.
A revelação sobre a edição do contrato ocorre em meio às investigações sobre as relações de Vorcaro com autoridades e integrantes das instituições de Justiça. O celular do banqueiro, apreendido pela Polícia Federal, também revelou mensagens nas quais ele buscava ajuda de autoridades diante das pressões que enfrentava.
Em um dos registros analisados pela PF, Vorcaro pediu a um interlocutor que tentasse convencer Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, a adiar uma operação. Em outra mensagem, questionou: “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? Muita sacanagem isso”. A investigação identificou Alexandre de Moraes como interlocutor dessas mensagens.
O ministro André Mendonça, relator das investigações no STF, encaminhou o relatório à Procuradoria-Geral da República e deu prazo para manifestação do procurador-geral Paulo Gonet.
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