Mãe denuncia erro que deixou filha tetraplégica e cega
Família diz que intercorrência em hospital deixou criança com graves sequelas neurológicas e físicas
Paulo Moura - 01/09/2026 10h01 | atualizado em 01/09/2026 12h03

Alice, hoje com 7 anos, sempre foi uma criança que gostava de estar em movimento. Antes de enfrentar uma sequência de fatos que mudaram completamente sua vida, ela frequentava a escola, fazia balé e era conhecida pela personalidade alegre e prestativa. Também era vaidosa: segundo a mãe, a enfermeira Bruna de Almeida, a menina fazia questão de ir para a escola com o cabelo arrumado e usando acessórios.
Criada na igreja, Alice também gostava de cantar e orar. Insistia em participar das atividades e, quando não conseguia, ficava triste. A menina gostava especialmente de auxiliar os adultos e cuidar das crianças menores. Para Bruna, uma das características mais marcantes da filha sempre foi justamente a disposição para ajudar: se alguém pedia um favor, Alice prontamente respondia que sim.

Hoje, essa mesma doce menina está internada no Hospital Pasteur, no Méier, Zona Norte do Rio de Janeiro, com um quadro de paralisia cerebral. Alice atualmente já respira sozinha e voltou a se alimentar pela boca depois de um longo processo de tratamento e reabilitação, mas, de acordo com a mãe, a filha ficou com graves limitações motoras e perdeu a visão.
O quadro em questão sucede, segundo a família, de uma intercorrência ocorrida durante uma internação no Hospital de Clínicas Mário Lioni, em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, em fevereiro de 2025, razão pela qual os familiares buscam respostas e condições para garantir a continuidade do tratamento da criança.
UMA IDA AO HOSPITAL MUDOU TUDO
A vida da família começou a mudar em fevereiro de 2025. No dia 13 daquele mês, Bruna foi chamada pela escola porque Alice havia vomitado. Depois de voltar para casa, Alice apresentou melhora e manteve a rotina normalmente nos dias seguintes, inclusive participando do aniversário do avô e da melhor amiga.
Na madrugada de 16 de fevereiro, entretanto, Alice voltou a vomitar, dessa vez de forma intensa. Ela também deixou de querer comer e ficou mais quieta. Na manhã do dia 17 de fevereiro, Bruna decidiu levá-la à emergência do Hospital de Clínicas Mário Lioni. Inicialmente, a mãe imaginava que pudesse ser uma gastroenterite e que a filha receberia soro e voltaria para casa.
No caminho, Alice ainda conversava e cantava normalmente. Chegou ao hospital andando, falou com a equipe de enfermagem, permitiu que verificassem sua pressão, peso e altura e subiu sozinha na balança.
De acordo com Bruna, a situação mudou depois da avaliação médica. Um raio-X de tórax foi solicitado e apontou pneumonia em todo o pulmão direito. Pouco depois, de acordo com a mãe, foi indicada a internação no CTI e aberto um protocolo de sepse. Alice passou a precisar de oxigênio e, ainda naquela noite, foi intubada.
– Ela estava muito cansada. Não aceitou o oxigênio por duas máscaras – lembra Bruna.

INTERCORRÊNCIA DURANTE A INTERNAÇÃO
O episódio mais grave a ser questionado pela família aconteceu no dia 23 de fevereiro de 2025. Segundo Bruna, uma enfermeira e uma técnica de enfermagem entraram no quarto para dar banho em Alice. Durante o procedimento, a mãe afirma que o tubo de intubação da menina teria sido deslocado. Ela diz ter ouvido um barulho de ar e saído para chamar uma médica e uma fisioterapeuta.
Quando retornou ao local, Bruna afirma que foi orientada a deixar o quarto. A porta, porém, permaneceu aberta, e ela conta que passou a ouvir uma intensa movimentação no interior da unidade.
– Ouvi muita gritaria, solicitação de materiais, um entra e sai. Foram pegar o carrinho de parada. Depois de muito tempo, escutei o nome adrenalina por três vezes – relata.
Segundo a mãe, cerca de 40 minutos depois, uma médica do CTI adulto entrou no quarto e informou que havia realizado uma nova intubação. A menina, porém, precisou ficar sedada após o ocorrido.
– Ela [a médica] me disse: “Entubei sua filha, com um tubo 5.5, sem nenhuma dificuldade” – afirma Bruna.
A partir daquele momento, a mãe passou a questionar o que havia acontecido e pediu que fossem realizados exames para verificar se Alice havia sofrido algum dano. De acordo com Bruna, no dia seguinte os médicos tentaram explicar que o quadro poderia estar relacionado à própria pneumonia, e não a uma falha humana durante o atendimento.
A mãe, no entanto, não ficou convencida e insistiu pela realização de tomografia e ressonância. Segundo ela, inicialmente os exames foram postergados sob a justificativa de que Alice estava sedada e que havia riscos em realizar os procedimentos naquele momento.
A menina permaneceu intubada por cerca de um mês e, quando a sedação foi retirada para que os médicos avaliassem sua resposta, Bruna percebeu que a filha não apresentava os movimentos esperados e mantinha o olhar parado. Bruna afirma que, depois do episódio no hospital, Alice teve graves alterações neurológicas e teve de passar por uma traqueostomia e uma gastrostomia.

“EU TINHA OUTRA ALICE”
Foi nesse período que, segundo Bruna, uma neuropediatra que acompanhava Alice explicou à família que a menina precisaria de um longo processo de reabilitação. A mãe, porém, diz que a notícia foi relatada “da pior maneira possível”.
– Uma neuropediatria de lá [do Hospital Mário Lioni] me explicou o diagnóstico da pior maneira possível. [Disse] que eu tinha que viver o meu luto, chorar mesmo e entender que a Alice, que eu conhecia, não existia mais. [Disse que] eu tinha outra Alice, no momento, que ela passou a ser especial, que os maridos normalmente iriam embora, e que Alice iria precisar de reabilitações pelo resto da vida – relatou.
Depois de cerca de três meses de internação, segundo a mãe, foi solicitada a alta hospitalar com indicação de home care. Bruna, porém, pesquisou sobre esse tipo de atendimento e ficou preocupada com a possibilidade de a filha não ter acesso à reabilitação necessária. Ela então procurou alternativas e encontrou a Clínica Valsa, no Jardim Botânico, na Zona Sul do Rio, especializada nesse tipo de cuidado.
A família conseguiu autorização para que Alice fosse encaminhada ao local, onde permaneceu por aproximadamente um ano e quatro meses. Para Bruna, esse período representou uma evolução na saúde da filha. Alice retirou a traqueostomia e a gastrostomia, voltou a respirar sozinha e passou a se alimentar pela boca. Também começou até a sustentar um pouco a cabeça quando sentada e a sorrir.
Durante esse período, de acordo com Bruna, a Amil, plano de saúde contratado pela família, autorizou a ida para a Clínica Valsa e órteses para os pés e as mãos, mas o caso acabou sofrendo um novo revés.
NOVA INTERNAÇÃO EM HOSPITAL
Em 24 de junho de 2026, Alice precisou voltar ao ambiente hospitalar, dessa vez no Hospital Pasteur. Segundo a mãe, a menina deixou de aceitar alimentos e passou a sentir dores abdominais. No hospital, ainda de acordo com Bruna, teria sido identificada uma pancreatite medicamentosa associada ao uso do anticonvulsivante e estabilizador do humor Depakene.
No entanto, depois de receber alta do Pasteur, a família recebeu a informação de que Alice não poderia retornar à Clínica Valsa, porque o período de permanência para reabilitação havia chegado ao limite. Desde então, a menina permanece no Pasteur, e Bruna afirma que a estrutura disponível na unidade não substitui o tratamento especializado que a filha vinha recebendo.
– Sem o [cuidado da Clínica] Valsa, Alice não tem reabilitações, nenhuma – aponta.
Bruna afirma que a filha precisa de fisioterapia motora, fonoaudiologia e outras terapias voltadas especificamente para seu quadro, e teme que a interrupção da reabilitação provoque perda dos avanços conquistados ao longo do último ano. A família também enfrenta dificuldades para receber Alice em casa. Segundo Bruna, a residência fica no terceiro andar e não possui estrutura adequada para a locomoção da filha.
– Teríamos que ficar subindo e descendo ela no colo, correndo risco de nos machucar ou cairmos com ela – relata.
FAMÍLIA COBRA PROVIDÊNCIAS DA AMIL
A mãe afirma que, no início do tratamento, a Amil havia informado que custearia as necessidades da filha. Com o passar do tempo, porém, Bruna diz que passou a enfrentar dificuldades para garantir a continuidade do atendimento. Segundo ela, a operadora autorizou o tratamento na Clínica Valsa e forneceu órteses, mas atualmente a família busca uma estrutura que permita a alta sem interromper a reabilitação.
No último dia 24, segundo Bruna, uma cadeira de rodas foi entregue a Alice. A família afirma, porém, que ainda precisa de outros equipamentos, terapias e condições adequadas para que a menina possa deixar o hospital com segurança.
– Eu preciso que eles se responsabilizem pelos custos da Alice, integralmente. Da cadeira de rodas à casa. Tudo! – afirma a mãe.
Segundo ela, a família busca que a operadora garanta home care, reabilitação e as adaptações necessárias na residência. Caso o imóvel atual não possa ser adaptado, a família também pede uma solução habitacional adequada às necessidades da criança. Bruna afirma ainda que, diante do quadro, decidiu recorrer à Justiça, e diz que a Amil não estaria aceitando qualquer acordo para o caso.
– Hoje, continuamos pagando o plano e, só por isso, fomos para o [atendimento da Clínica] Valsa e estamos aqui – diz.
Além da ação judicial, a família relatou ter levado o caso a outros órgãos, como a Polícia Civil, mas que, até o momento, a família não recebeu a resposta que espera das instituições procuradas.
Enquanto aguarda uma decisão, Bruna permanece ao lado da filha no hospital. A menina que antes gostava de se arrumar para ir à escola, fazer balé, cantar na igreja e ajudar quem estivesse por perto, agora depende de uma rede de cuidados para atividades que antes fazia sozinha. No coração da mãe, há a dor de ver a situação da pequena.
– É uma revolta sem tamanho. Eu choro o tempo todo – concluiu.
OUTRO LADO
O Pleno.News procurou a Amil para esclarecer as afirmações da família sobre o atendimento prestado a Alice, as circunstâncias da intercorrência durante a internação no Hospital de Clínicas Mário Lioni, a continuidade da reabilitação, os tratamentos atualmente oferecidos e os pedidos apresentados pela família na Justiça.
Em nota, a operadora informou que o Hospital Mário Lioni “mantém diálogo permanente com a família para garantir toda a assistência necessária à paciente” e que “o processo de reabilitação foi iniciado imediatamente após a alta hospitalar, em clínica especializada, incluindo terapias, equipamentos, medicamentos e demais insumos”.
– A instituição ressalta que está adotando as medidas necessárias para assegurar a continuidade do cuidado – completou.
A Amil não comentou a intercorrência envolvendo a intubação de Alice.
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