Médico cobra entidades após fala de Lula sobre toque em meninas
Protocolo médico não permite exame de toque em crianças e adolescentes
Leiliane Lopes - 29/09/2026 18h49 | atualizado em 29/09/2026 20h18

O médico psiquiatra Victor Augustho informou nesta terça-feira (29) que notificou a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) após uma declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O pedido busca um posicionamento das entidades sobre exames ginecológicos em meninas e adolescentes.
A declaração de Lula ocorreu na segunda-feira (28), durante um comício em Belém (PA). Ao defender a realização de exames para prevenção do câncer de próstata, o presidente comparou a resistência dos homens ao exame de toque com os procedimentos ginecológicos realizados por mulheres.
– O homem não gosta de fazer teste de próstata. Ele não gosta de toque. As mulheres aprendem a tomar toque desde pequenas. O homem não, ele é cheio de trejeito. Ele não sabe que, quando ele tiver câncer de próstata, vão dar muito toque nele – afirmou Lula, durante o evento.
Após a repercussão, Augustho publicou nas redes sociais que decidiu formalizar o questionamento às duas entidades médicas. Segundo o médico, a intenção é esclarecer à população quais procedimentos fazem parte do atendimento ginecológico e quais situações podem configurar abuso.
– Como médico, CRM-GO 29.251, notifiquei a Sociedade Brasileira de Pediatria e a FEBRASGO – escreveu.
No documento encaminhado às entidades, Augustho pede que sejam divulgadas orientações públicas sobre o atendimento de meninas e adolescentes. Ele sustenta que não existe rastreamento de câncer do colo do útero na infância e que exames íntimos nessa faixa etária dependem de indicação clínica.
– “Aprender a tomar toque desde pequena” não é protocolo. Menina que é tocada desde pequena é vítima de abuso – declarou o médico.
Augustho também questiona a associação entre o exame preventivo do colo do útero e o chamado toque vaginal. Segundo as diretrizes citadas no documento, o rastreamento começa aos 25 anos para mulheres que já tiveram atividade sexual, com exceções específicas para pessoas com imunodeficiência. O documento também menciona a atualização de 2025, que prevê o teste de DNA-HPV como método primário onde estiver disponível.
– Pedi posicionamento oficial. A população tem o direito de saber o que é exame e o que é abuso – afirmou.
Na publicação, o médico explica ainda que o preventivo do colo do útero utiliza coleta com espéculo e escova ou swab. Ele afirma que o toque com o dedo não faz parte do procedimento de rastreamento e que, em mulheres virgens, o exame ginecológico não inclui toque vaginal como rotina.
O documento encaminhado à SBP e à FEBRASGO também diferencia exames realizados por indicação médica de procedimentos feitos como rotina. Entre as situações que podem justificar uma avaliação íntima estão sintomas ou suspeitas clínicas específicas, com técnica adequada à idade e consentimento correspondente.
– Preventivo do colo do útero não se faz em menina; começa aos 25 anos e só se já houve relação sexual. A exceção é a imunodeficiência, após o início da vida sexual – escreveu Augustho.
O médico ainda afirma que, quando um exame íntimo for considerado necessário em uma paciente virgem, deve existir indicação clínica registrada, consentimento e documentação da responsabilidade profissional. Ele defende que procedimentos sem justificativa e fora dos protocolos sejam diferenciados de exames médicos indicados.
– Em quem é virgem, exame ginecológico não inclui toque. Se for estritamente necessário: indicação escrita, consentimento e termo de responsabilidade assinado pelo médico. Sem isso, o médico responde — inclusive na esfera criminal – declarou.
No documento, Augustho pede que as entidades também orientem profissionais de saúde e estudantes para que declarações públicas não sejam utilizadas como justificativa para modificar protocolos médicos. A solicitação foi encaminhada em 29 de setembro, em Goiânia (GO), e inclui pedido para que o tema seja levado a órgãos como Ministério da Saúde, INCA e Conselho Federal de Medicina.

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