Folha é criticada por charge vista como referência à morte de juíza
Veículo publicou imagem na véspera do Dia das Mães e dias após morte de juíza que tinha desejo de ser mãe
Paulo Moura - 10/05/2026 11h16 | atualizado em 11/05/2026 10h34

Uma charge publicada pelo jornal Folha de S.Paulo na edição deste sábado (9) provocou fortes críticas, especialmente do Judiciário, após a cartunista Marília Marz utilizar a imagem de uma lápide acompanhada da frase “Vidinha mais ou menos, até perdê-la junto dos penduricalhos” em uma referência crítica à remuneração dos magistrados brasileiros.
A repercussão negativa ocorreu em meio ao clima de comoção provocado pela morte da juíza Mariana Francisco Ferreira, do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS), que morreu aos 34 anos na última quarta-feira (6) após complicações decorrentes de um procedimento médico ligado ao processo de fertilização in vitro.
A morte da magistrada ocorrida poucos dias antes da publicação da charge, que por sinal foi veiculada na véspera do Dia das Mães, foi uma das circunstâncias apontadas pelas entidades como fator determinante para o agravamento da indignação no meio jurídico.
A publicação foi alvo de críticas de órgãos como o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), a Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe), o Conselho de Presidentes dos Tribunais de Justiça do Brasil (Consepre), além de integrantes do Judiciário, como o presidente do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3), desembargador Luís Antonio di Salvo.
Em nota oficial, o presidente do CNJ e do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Luiz Edson Fachin, afirmou que a liberdade de imprensa, o direito à crítica e a livre circulação de ideias são fundamentos essenciais da democracia. Apesar disso, ressaltou que essas garantias não eliminam o dever de prudência, responsabilidade e consciência ética, especialmente em situações marcadas pelo luto.
– Em meio à consternação causada pela partida precoce de uma jovem integrante do Poder Judiciário, certas reações revelaram menos apreço pela crítica institucional legítima e mais inclinação à lógica da desmoralização contínua das instituições judiciais, por vezes reduzidas à ironia fácil, à hostilidade difusa e à negação de sua dimensão humana – destacou.
O texto divulgado pelo CNJ também advertiu para os riscos de um ambiente público marcado pela agressividade permanente contra instituições republicanas. De acordo com a nota, quando o debate abandona “a medida, a sobriedade e a consciência dos limites civilizatórios”, ocorre um processo de corrosão da convivência democrática e de enfraquecimento da confiança social nas instituições.
Ainda na manifestação, Fachin afirmou que magistrados não estão acima da crítica e devem permanecer sujeitos ao controle social, mas destacou que isso não pode resultar em uma cultura permanente de desprestígio institucional. Para o ministro, a autonomia do Poder Judiciário depende também da preservação de condições mínimas de respeito público.
A Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) adotou tom semelhante ao condenar a publicação. A entidade declarou que a charge transformou a magistratura em alvo de “escárnio” justamente em uma semana marcada pela dor da perda da juíza Mariana Francisco Ferreira.
No comunicado, a AMB destacou que a própria Folha de S.Paulo havia publicado, no dia anterior, reportagem sobre a morte da magistrada gaúcha, que ocorreu após procedimento relacionado ao desejo de se tornar mãe. Para a associação, mesmo que a charge não tivesse como alvo direto a juíza falecida, seria impossível dissociar a publicação do contexto em que ela ocorreu.
– Por trás da toga há vidas, famílias, renúncias e trajetórias marcadas por anos de estudo e dedicação ao serviço público. A AMB lamenta que a Folha de S.Paulo tenha permitido a veiculação de conteúdo tão insensível – disse a entidade.
Já a Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) classificou a charge como uma escolha editorial “grave” e “insensível”, afirmando que a liberdade de imprensa “não autoriza a banalização da morte nem a desumanização de uma categoria formada por mulheres e homens que servem ao Estado com responsabilidade, sacrifício pessoal e dedicação cotidiana”.
– Quando a imprensa abandona a empatia mínima e a sensibilidade ao contexto, deixa de informar e passa a agredir. Da Folha de S.Paulo, veículo com tradição no jornalismo brasileiro, a sociedade espera mais e a magistratura nacional reafirma que nenhuma garantia democrática dispensa o dever de respeito à dignidade humana – registrou a associação.
O Conselho de Presidentes dos Tribunais de Justiça do Brasil (Consepre) também se posicionou contra a publicação. Em nota, o órgão declarou “irrestrita solidariedade” à família da juíza Mariana Francisco Ferreira e afirmou lamentar profundamente que a dor da família tenha sido agravada pela charge publicada pela Folha.
A entidade afirmou que a publicação ultrapassou os limites do debate público legítimo ao banalizar a morte e ridicularizar a dor humana, além de contribuir para a “crescente desumanização da magistratura brasileira”. O conselho também argumentou que a charge acabou atingindo simbolicamente a imagem de uma mulher magistrada recém-falecida.
– A crítica institucional jamais pode servir de instrumento para banalizar a morte, ridicularizar a dor humana ou desconsiderar o sofrimento de familiares, amigos e colegas profundamente abalados pela perda de uma vida – destacou.
Entre as manifestações mais duras esteve a do presidente do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3), desembargador Luís Antonio di Salvo. Em nota oficial, o magistrado classificou a charge como “patife” e afirmou que o desenho representou um “pérfido uso” de uma tragédia para atacar a magistratura nacional.
– O mal está feito. Não há retorno possível. A sociedade já tomou ciência da perfídia cometida na página A2 do jornal Folha de S.Paulo, edição de 9/5, sábado, véspera do Dia das Mães. A boa magistratura, aquela impregnada de ética e republicanismo, aquela que conhece tanto sua grandeza quanto os seus limites, seguirá firme em linha reta, pranteando os seus e as suas que nos deixaram precocemente – completou.
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